Até Onde o Corpo Aguenta

Até Onde o Corpo Aguenta

A primeira coisa que ela percebeu foi o som da porta. Não o som exato do trinco, mas aquele silêncio que muda de tom quando alguém entra — como se o ar sussurrasse “agora não estás mais sozinha”.

Ela não se virou.

Continuou encostada na bancada fria da cozinha, as costas expostas pela camisa larga que escorregava num dos ombros. Era madrugada. O apartamento dormia com as luzes apagadas, exceto a da geladeira, que piscava a cada poucos segundos como se respirasse junto com ela.

Ele também não disse nada.

A respiração dele era discreta, mas conhecida. Aquela mistura de contenção e domínio. A mesma de quando ele se aproximava por trás e deixava o silêncio fazer o trabalho da vontade.

Ela esperou.

Sabia que se ele encostasse a mão agora, seu corpo cederia antes do pensamento alcançar qualquer moralidade.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Um toque leve na parte de trás da coxa — dois dedos apenas, como quem mede a temperatura de um segredo.

Ela fechou os olhos.

Não era uma mulher de obediência fácil. Mas com ele, não era obediência. Era instinto. Era o corpo abrindo caminho antes da consciência pedir permissão.

Ele se aproximou.

Encostou o quadril no dela, deixando claro que estava armado de intenções.

A respiração na nuca veio depois, quente, irregular, seguida de um sussurro que não era uma ordem, mas também não era um pedido:

— “Fica assim.”

E ela ficou.

As mãos dele exploraram as laterais do seu corpo como quem contorna um mapa conhecido, mas com pressa de se perder. Subiram devagar, arrepiando até a raiz dos cabelos. A camisa escorregou, revelando pele demais. Ou talvez fosse só a pele certa.

Ela se apoiou na pia, tentando manter o equilíbrio. Mas ele não ajudava.

Mordeu a parte de trás do ombro. A respiração dela falhou.

Desceu com os lábios pela coluna, como se seguisse um rio de calor.

O corpo dela pediu mais. Sem dizer. Sem mover.

Quando ele afastou um pouco as pernas dela com os joelhos, o ar mudou. Ficou mais denso.

Ela estava tão molhada que o frio da bancada já não fazia sentido.

O toque entre as coxas veio com a firmeza de quem sabe o que faz e a delicadeza de quem sabe o que tem.

Ela gemeu baixo — não por querer, mas porque não soube conter.

— “Você tá tremendo.”

— “Tô.”

— “Então deixa que eu seguro.”

E segurou.

Um dos braços dele passou pela cintura dela, puxando com firmeza, encaixando o corpo como se fossem peças condenadas a se fundir.

A entrada foi lenta. Quase cruel. Ele se manteve ali, imóvel, apenas deixando ela sentir o preenchimento como um aviso: não tem volta.

Ela mordeu o lábio, agarrou a bancada e arqueou as costas, oferecendo mais — como se dissesse me quebra com carinho.

Os movimentos começaram suaves, como promessas. Mas promessas não sobrevivem à vontade.

Logo vieram mais fortes, mais fundos, mais certos.

Cada investida dele arrancava dela um som novo.

Sons que não eram gemidos — eram vontades materializadas.

Eram segredos ditos pela garganta sem autorização.

Ele segurava com uma das mãos seu quadril, com a outra, os cabelos.

Dominava o ritmo como quem conduz uma música feita pra arrebentar no refrão.

Ela estava à beira. E ele sabia.

Mas em vez de acelerar, ele parou.

— “Pede.”

Ela não respondeu.

— “Pede pra eu deixar você gozar.”

— “Por favor…”

A voz dela saiu arranhada, falhada.

— “Me deixa…”

— “Fala mais.”

Ela gemeu. Arfou.

— “Me deixa gozar… do teu jeito… com tua força… com tua vontade em mim…”

Ele voltou. Com mais força. Com mais vontade. Com a fome de quem esperou noites inteiras por aquele instante.

Ela goza sem controle.

Com o corpo tremendo.

Com a respiração falha.

Com os olhos fechados e o peito explodindo de um prazer que não era só físico — era algo mais… mais fundo, mais impuro, mais eterno.

Ele não parou.

A segurou enquanto ela desabava.

Ficaram assim, colados, pesados, suados, como duas promessas quebradas que finalmente se encontraram.

E só então… só depois de tudo, ele beijou sua nuca.

E disse, no tom mais baixo da noite:

— “Amanhã a gente finge que nada disso aconteceu.”

Mas eles sabiam.

O corpo não esquece.

E aquela madrugada seria lembrada

até onde o corpo aguentasse.


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